INSIGHTS
The softer side of someone obsessed with precision, facts and numbers. ●
PAULO SANTOS | Allan 0316
O Profundo Sentido da Saudade
«Comove-me esta fotografia. Comove-me como no momento em que a tirei, na Covilhã, pouco antes de embarcar na automotora a caminho da Guarda. Lembro-me de deixar escapar uma lágrima, assim discreta, ao tocar-lhe no corpo frio, fustigado pelo tempo. Há nela, nesta fotografia, todo um turbilhão de coisas que naquele momento senti, mas que agora não consigo reproduzir por palavras—nem quero. É uma fotografia que se distingue dentre as milhares que tirei—que se sente, mais do que aquilo que se possa ver. Há nela uma tristeza elegíaca, uma cálida redenção que se entranha na pele e não nos larga mais. A nítida percepção de que aquilo que nos faz feliz nunca dura para sempre. Que, a dada altura, temos de largar. Há nela o profundo sentido da partida, o doloroso prenúncio da saudade. Partilho-a, esta fotografia, certo de que outros a entenderão—talvez encontrem nela outros sentidos. Para aquilo que realmente interessa, adapto despudoradamente as palavras do Poeta—sentir, sinta quem vê.»
Automotora Allan 0316 na Covilhã, em Maio de 2003.
PAULO SANTOS | Allan 9303
As Irmãs Pequeninas
«Para quem não sabe, as automotoras Allan grandes tinham irmãs pequeninas, destinadas às linhas de via métrica. Passaram pelas Linhas do Tua, do Porto à Póvoa e Famalicão, de Guimarães e pelo Ramal de Matosinhos. Por fim, fixaram-se na Linha do Vouga e no Ramal de Aveiro, onde as fui visitar sempre que pude, mantidas orgulhosamente pelos ferroviários, alguns ainda com a memória presente dos tempos áureos das Oficinas de Sernada e das progressivas automotoras (AMyf 101–104 e ME 55) ali construídas—incluindo a peculiar, mas útil "peixeira" (Dmyf 1). Quando tirei esta fotografia, Sernada do Vouga estava já longe desses tempos, mas era ainda um lugar pleno de encanto e a confluência das circulações provenientes de Espinho e de Aveiro, asseguradas por automotoras Allan e pelas Đuro Đaković (as antigas "Xepas") já modernizadas. No pátio, junto às oficinas, havia agora espaço para os autocarros que substituíam as automotoras em alguns horários. Autocarros que tive ocasionalmente de utilizar para não pernoitar na pequena aldeia, para regressar a Espinho, e que não eram bem encarados pelos ferroviários—fartam-se de comer pneus, é o que é, sem necessidade—confidenciavam-me, com tristeza. Desde que perdi o interesse pelo caminho-de-ferro português, por volta de 2009, deixei de visitar a rede, e há muito tempo que não vou a Sernada do Vouga, ou à Secção Museológica de Macinhata do Vouga, ali ao lado. Mas neste dia de Verão em 1995, na companhia de gente boa, de grandes ferroviários, ao fotografar esta Allan pequenina, a 9303, estava feliz. E não há nada que apague uma boa memória.»
Automotora Allan 9303 em Sernada do Vouga, em Agosto de 1995. Parcialmente visível, a Allan 9306 e a locomotiva Alsthom 9006.
PAULO SANTOS | Rolls-Royce Sentinel 1183
Sempre Pela Viagem
«Nos anos noventa, ia muitas vezes ao Porto para ver os comboios. Mas os comboios não são todos iguais?— perguntavam-me os amigos—Não, não são. E naquela altura não eram, de todo. Em boa verdade, o "meu" Porto era sobretudo o ponto de partida para diversos percursos. Na via métrica até Guimarães e na via larga até Valença, Braga, ou Pocinho. Na Linha do Douro, o percurso até ao Pocinho era sempre feito em vários dias, por etapas, aproveitando para visitar a encantadora via métrica: as Linhas do Tâmega, do Corgo, e do Tua, cada uma com o seu equipamento, cada uma com as suas gentes, cada uma com o seu carácter. No Tâmega saudava as "Micas"; no Corgo as "Xepas"; e no Tua as "9020" (não lhes conhecia alcunhas) acompanhadas pelas graciosas "Napolitanas". Nesta altura, a Linha do Sabor já tinha morrido. Por vezes, percorria-lhe alguns troços, vários quilómetros a pé pelo leito de via, para recordar e fotografar, mas acabaram por se tornar momentos demasiado tristes para insistir. De volta ao Porto, à estação de Porto (Campanhã), vemos nesta fotografia o laborioso Rolls-Royce Sentinel/SOREFAME 1183 durante uma breve pausa nas suas manobras e, em segundo plano, detalhes interessantes para quem os quiser identificar. Bonitos semáforos. Mais tarde, nesse dia, voltaria a Lisboa de madrugada, no lento "comboio-correio", à janela ou a conversar. Agora que penso nisso, nunca viajei pelo destino—sempre pela viagem. Quanto mais longa e interessante, melhor.»
Locotractor Rolls-Royce Sentinel/SOREFAME 1183 no Porto (Campanhã), em Abril de 1996.
PAULO SANTOS | Nohab 9501
As Meninas Bonitas
«Nos anos noventa, as linhas de via estreita subsidiárias da linha do Douro viviam o derradeiro capítulo das suas longas histórias. A linha do Sabor havia já morrido em 1988, aos 77 anos de idade, e as restantes, as Linhas do Tua, do Corgo, e do Tâmega, resistiam, apesar das expressivas amputações e cientes do que as esperava mais adiante. Mesmo assim, cada uma delas mantinha o seu sorriso e a vontade de continuar a servir a terra e as gentes de toda uma vida. E cada uma destas linhas tinha um carácter distinto. A Linha do Tâmega, entre a Livração e Amarante, tinha um percurso de cerca de treze quilómetros, curto e simples, mas encantador, até romântico, por entre sombras e verdes espantosos e musgos nos troncos das árvores e nos muros escurecidos. Era uma paisagem antiga e misteriosa, onde a terra húmida respirava o tempo. Por ela, a automotora passava discretamente, sem pressas, mas chegando sempre quando devia de chegar. Gravei várias vezes o seu percurso, a sua voz pontualmente enleada no canto dos pássaros lá fora e nas vozes das gentes a bordo, por vezes também no piar inquieto dos pintitos trazidos da feira numa caixa de cartão com furinhos, num saco aconchegado a outros a transbordar de vistosos e aromáticos legumes, no espaço tomado para as bagagens junto à cabina. Não me lembro das pequenitas automotoras Nohab terem cognome ferroviário, mas várias pessoas tratavam-nas carinhosamente por "Micas", o mesmo nome para as três, e nunca ninguém me soube explicar porquê—talvez por serem formosas e pequeninas, catitas ou até vaidosas, quem sabe. Neste dia, em Março de 1996, encontrei uma das "Micas", a Nohab 9101 a descansar à porta de sua casa, na Livração, esmeradamente mantida pelos ferroviários que—diziam-me—tinham gosto em mantê-las, às três, assim, bonitas. De facto, a 9102 estava igual. E a 9103, pintada de fresco, resplandecia qual menina vaidosa sob o sol duriense. Depois de desfrutados os percursos, a terra e as gentes—e a comida—tinha nesse dia de voltar ao Porto. Já a noite caíra sobre a Livração quando o comboio chegou. Estava frio. De dentro da carruagem Schindler, olhei pela janela. Tudo escuro pela serrania. Acomodei-me e fechei os olhos. Tinha sido um dia bem passado.»
Automotora Nohab 9501 na Livração, em Março de 1996. A Linha do Tua foi encerrada em Janeiro de 2012.
PAULO SANTOS | Đuro Đaković 9710+9709
Automotoras na Serrania
«Gostava muito de visitar a Linha do Corgo. Do ritual de chegar ao Peso da Régua e saudar os ferroviários, de cirandar junto às locomotivas Henschel E200 ali deixadas, ornando a placa de inversão, à espera do destino. Gostava de ver a pequenita Henschel E1. Depois, mais adiante, gostava de entrar nas vistosas automotoras Đuro Đaković pintadas de vermelho e branco e percorrê-las de ponta a ponta, antes da partida. Por fora e por dentro, pareciam-me sempre comboios de brincar. Nascidas nos anos sessenta e provenientes da Jugoslávia, onde já não eram necessárias, foram adquiridas no início dos anos oitenta para modernizar a nossa via métrica, permitindo o fim do vapor. De permeio, foi necessária a conversão da bitola original de 760 mm para a 1000 mm, processo que lhes terá inadvertidamente conferido uma peculiar e desconfortável trepidação em andamento. Chamavam-lhes "Xepas", a propósito da "Dona Xepa", personagem que dava nome a uma telenovela brasileira passada entre nós. A Dona Xepa era uma feirante que tinha por hábito esperar pelo final das feiras para comprar a preços mais baratos os produtos que mais ninguém queria, os restos ("xepa", no Brasil). Por outro lado, tinha um andar algo brusco e desengonçado. Em boa verdade, nunca percebi qual dos dois atributos lhe tinha casado maliciosamente o nome com as automotoras—ouvia argumentos para ambos. Mas, para aquilo que interessa, estas interessantes criaturas pareciam cumprir o que lhes era pedido.
Entre Vila Real e a Régua, cerca de 25 quilómetros, a Linha do Corgo seguia em boa parte o curso do rio que lhe dava o nome, rio de águas negras serpenteando as fragas no vale profundo. Uma paisagem austera, em tons ocres, por vezes dramática, de arvoredos e socalcos e afloramentos rochosos, pontuada por casarios aninhados nas encostas da serrania. Uma paisagem monumental, que olhávamos com avidez para não a esquecermos nunca. Depois do apeadeiro do Corgo, os carris pequenos curvavam à direita para se enlearem noutros, maiores, da Linha do Douro, para cruzarem a Ponte do Corgo e terminar o percurso no Peso da Régua, à esquerda das vias principais. Neste dia, em Abril de 1995, é precisamente no Peso da Régua que encontro uma das "Xepas", a Đuro Đaković 9710+9709, com um excelente aspecto, a desfrutar de um merecido descanso. Lembro-me de pensar que os ferroviários, sobretudo na via estreita, tinham um particular gosto em manter aprumadas as criaturas à sua guarda. A irmã, a 9711+9712, estava igual.
Na Jugoslávia, as Đuro Đaković eram compostas por quatro elementos, todos motorizados. Em Portugal, circularam assim na Linha da Póvoa e Guimarães e na Linha do Tua. Nesta última, foram depois reduzidas para três elementos e na Linha do Corgo para apenas dois, como podemos ver na imagem. Na Linha do Vouga, circularam com três elementos. Como sempre, neste dia fotografei detalhadamente tudo o que havia para fotografar—por aqui, ao longo do percurso, e em Vila Real, antes do regresso ao Porto. Ao longo dos anos continuei a visitar esta linha, a dada altura servida pelas curiosas automotoras CAMO LRV 2000, hábil reciclagem de bases Đuro Đaković, e recorrentemente afligidas por absurdos e criminosos actos de vandalismo. Uma lástima. No todo, ficaram as boas memórias dos seus ferroviários, da terra e das gentes, ambas austeras, mas sempre leais e generosas. Entristece-me que tenham perdido o seu comboio. Entristece-me, que todos tenhamos perdido este comboio.»
Automotora Đuro Đaković 9710+9709 no Peso da Régua, em Abril de 1995. A Linha do Corgo foi encerrada em Julho de 2010.
PAULO SANTOS | Alsthom 9022
Por Entre Mimosas e Granitos
«Visitar a Linha do Tua era sempre um desafio. O tempo sempre curto para tanta coisa que queria fazer, sobretudo ao chegar a Mirandela, onde era tão agradável passear. Nestas visitas, nunca faltava a tradicional alheira ao almoço, umas vezes em Mirandela, outras em Valpaços, porque—garantiam-me—não se deviam confundir. E ao saberem do meu peculiar gosto por comboios, falavam-me dos tempos em que saiam de Mirandela, atrás das locomotivas a vapor, vagões carregados desta popular iguaria. Na estação, fotografava tudo o que havia para fotografar e ainda bem, pois, a dada altura, parte da sua área foi modificada para acolher uma área de lazer e o Metro de Mirandela, que haveria de chegar em 1995. Neste dia, possivelmente no Verão de 1994, encontrei a Alsthom 9022 com três carruagens "Napolitanas", assim chamadas pelo seu local de nascimento, as Officine Ferroviarie Meridionali, de Napoli ou Nápoles, como preferirem. Nascidas em 1931 e introduzidas em serviço na Linha de Guimarães, estas carruagens eram, de facto, muito graciosas, por fora e por dentro. Quanto às Alsthom 9020, introduzidas em 1976, achava sempre interessante o seu parentesco com as Alsthom/Euskalduna 9000 e, em Espanha, com as Alsthom/MTM 1600 e 1650, e GEC Alsthom 1660 operadas pela FEVE. Sobretudo, gostava muito desta composição que, aos meus olhos, casava perfeitamente com a paisagem transmontana.
Entre Mirandela e a estação do Tua, cerca de 54 quilómetros, a Linha do Tua dividia-se, para mim, em duas partes—a primeira até perto do Cachão, bonita e pastoral, e a segunda, a partir daí, dramática e espantosa, agreste, por vezes monumental, pontuada por trincheiras rasgadas nas encostas graníticas, por túneis, pontes e viadutos, até terminar serenamente o percurso junto à Linha do Douro, com o rio maior mesmo ali ao lado. Por vezes, admito-o, ia até ao vestíbulo, abria a porta da carruagem e sentava-me no chão durante alguns minutos, como um escritor à espera de inspiração, com os pés assentes no degrau, as biqueiras dos sapatos teimosamente amareladas pelas mimosas floridas à beira da linha, o olhar abraçado à serrania transmontana.
Andei algumas vezes no Metro de Mirandela, inaugurado em 1995, cerca de 4 quilómetros entre Mirandela e Carvalhais, mas nunca lhe compreendi a intenção, nem a afectação que deu nome às automotoras ("Lisboa", "Paris", "Estrasburgo", "Bruxelas"), e a algumas paragens (Mirandela-Piaget, Jacques Delors, Jean Monet). As automotoras CAMO LRV 2000, vestidas de verde e branco, decerto cumpriam bem o serviço, mas não me parecia haver grande serviço para cumprir. A partir de 2001, passaram a assegurar igualmente a ligação Mirandela–Tua. Infelizmente, depois de dois acidentes graves, a ligação foi encurtada até Cachão em 2008. Por fim, todos os serviços ferroviários assegurados pelo Metro de Mirandela foram suspensos em Dezembro de 2018. Todavia, já em 2017 a construção da Barragem de Foz Tua havia submergido cerca de 16 quilómetros da Linha do Tua, eliminando em definitivo a sua ligação à Linha do Douro.»
Locomotiva Alsthom 9022 em Mirandela, possivelmente em 1994. Os serviços ferroviários na Linha do Tua foram encerrados em Dezembro de 2018. A Alsthom 9022 foi vendida em 2003 ao operador MadaRail, de Madagascar.
PAULO SANTOS | Nohab 0105
Cada Coisa no Seu Tempo
«Sentado na beira da plataforma, com os pés sobre o balastro, olho para o relógio—são duas e vinte da madrugada. A poucos metros, a locomotiva English Electric 1800 parece dormitar, antes de retomar a marcha do comboio Regional 8023 a caminho do Algarve. Aguardamos ali, em Beja, uns bons minutos pelo cruzamento com o comboio de mercadorias que, dizem-me, vem atrasado. Alguns passageiros aproveitam para fumar e esticar as pernas. Outros, no interior das carruagens, aninham-se ainda mais. Quanto a mim, inspiro a frescura da madrugada, a fragrância do trigo que se escapa dos campos e das tremonhas, o doce indício de estevas por perto. A vibrante partitura das criaturas da noite ecoa pela estação. Sinto-me feliz. E agradeço aos deuses o privilégio por mais uma vez estar no sítio certo à hora certa. E faço-o mesmo a tempo. Na distância, a voz inconfundível de uma Alco 1500 anuncia a sua chegada. Toca a levantar.
Mesmo de passagem, o Alentejo era sempre assim, como estar em casa. Quando tinha oportunidade, ficava um ou dois dias a percorrer os ramais, ora em automotoras Nohab, ora em locomotivas Brissonneau & Lotz/SOREFAME 1200 ou English Electric/SOREFAME 1400 com carruagens B600, por vezes à mistura com uma carruagem Budd, oriunda do memorável "Flecha de Prata". As criaturas mais expeditas eram naturalmente as Nohab, airosamente vestidas de vermelho e branco, com o seu habitual perfume a diesel, lançadas com gosto pela planície, com os motores a meia-nau a trepidar e a meter despudoradamente conversa com os passageiros. E havia sempre conversa entre os passageiros, ninguém ficava de fora muito tempo, falava-se de tudo e de nada, porque o silêncio não era ali boa companhia. O convite fraterno, uma peça de fruta retirada de um paninho, sempre tão aromática, uma broa e toucinho cortados a canivete, uma lasquinha de queijo de cabra, chegava para todos. Por vezes, outro convite, para um jogo de cartas, aceite com entusiasmo antes do previsível descalabro, perdoado por entre gargalhadas. Moços da cidade... Por longa que fosse a viagem entre searas e montados—era sempre curta demais.
Neste dia, em Outubro de 2004, o Alentejo não estava em si. Escuro e chuvoso, nem o sol a espreitar por entre as nuvens lhe rasgava um sorriso. Na estação de Évora, as Nohab 0106, 0111, e 0105, pareciam à vontade, talvez a recordar as suas origens nórdicas, em Trollhättan, na Suécia. Gostava muito destas automotoras, introduzidas em 1948 e ocasionalmente apelidadas de "Suecas". Se necessário, circulavam com um reboque, mais curto, mas a condizer. A adaptação ao nosso clima requereu engenho, coisas de calores, mas depois ficaram toda uma vida, até ao fim, até deixarem de ter carril para percorrer, até deixarem de ser queridas. Neste dia, despedi-me da 0105 e da 0106, que partiriam mais tarde para a Argentina. Felizmente, a 0111 ficou por cá, preservada no Museu Nacional Ferroviário.
Actualmente, já pouco resta do Alentejo ferroviário que conheci. Apenas dois dedos magros estendidos na paisagem—um a apontar a Évora, o outro a Beja. Já não conheci—muito longe disso—estas linhas e ramais no seu esplendor, como o estimado maquinista Joao Manuel Soares—e tenho dele uma saudável inveja. Mas ainda tive o gosto de resgatar tantas memórias inesquecíveis, de percorrer a planície em comboios povoados por gente simples e fraterna, por entre searas e montados e estevas e rosmaninhos, por entre o canto dos pássaros e o olhar atento das corujas ao entardecer, em linhas quase sem destino, porque o Alentejo não tem fim para quem souber nele viajar.
Tenho pena que as gerações mais recentes não tenham desfrutado de tudo isto. Mas, se calhar, também não o entenderiam, ser-lhes-ia desconfortável, até penoso. Reclamariam de alguma coisa ao fim de pouco tempo. No Alfa Pendular a caminho do Algarve, atravesso vertiginosamente a planície, rodeado de gente com auscultadores coloridos e fofos, os olhos e os dedos ansiosamente colados aos pequenos ecrãs. De vez em quando olham pela janela, erguem o telemóvel para filmar algo que lhes despertou o interesse, pouco mais. Conferem se o ar condicionado está a funcionar, as horas e a velocidade. E tenho a certeza de que os deuses sabem o que estão a fazer—cada coisa no seu tempo.»
Automotora Nohab 0105 em Évora, em Outubro de 2004. Também presentes nesse dia, a 0106 (à nossa esquerda, não visível) e a 0111 (parcialmente visível à nossa direita). Por volta de 2007, a 0105 e a 0106 são vendidas para a Argentina. A 0111 (e um reboque, o 101) encontra-se preservada no Museu ferroviário Nacional, no Entroncamento.
PAULO SANTOS | Alco 1501
Uma 1500
«Hoje correu tudo mal e atrasei-me, há dias assim. Está frio, são onze e um quarto da noite e estou na estação da Moita do Ribatejo a aguardar pelo último comboio para Lisboa, o Regional 8130 proveniente de Beja. Ao fim de algum tempo, oiço na distância o matraquear firme e áspero de um motor diesel. Pouco depois, reverbera pelo horizonte um apito rouco e prolongado, como se, por artes mágicas, um imponente transatlântico por ali andasse, perdido na planície. Sorrio, finalmente uma coisa boa. Algumas pessoas levantam-se, permaneço sentado. Sei o que vem aí e ainda vai levar uns minutos a chegar. Volto ao meu livro. Pouco depois, reparo de soslaio nas pessoas a perscrutarem o horizonte, confusas. O som do motor, ora se ouve, ora quase deixa de se ouvir. Terá avariado o comboio? Sorrio. Por fim um ponto de luz amarelado cintila no horizonte, aproxima-se, até que uma imponente locomotiva cor-de-laranja irrompe pela estação, fazendo estremecer a plataforma. Fecho o livro. Uma 1500.
Gostava muito das Alco 1500, introduzidas em 1948. Conhecia-lhes razoavelmente a história e sempre achei notável como os nossos mecânicos tinham nelas mantido a funcionar os problemáticos motores 244, que nos Estados Unidos equipavam para além das RS-2 e RSC-2, as espantosas FA-1, FB-1, PA-1, e PB-1. Em boa verdade, as nossas cargas nada tinham a ver com as americanas, e os nossos maquinistas tinham afecto por estas criaturas, sabiam levá-las, mas mesmo assim. Para todos os efeitos, as nossas Alco 1500, que seriam RSC-2 (1500 cv) antes de se tornarem RSC-3 (1600 cv—no nosso caso, 1730) nos anos setenta, com a actualização para o lendário motor 251 (251-C), prestaram um serviço exemplar ao longo de toda a sua vida, cerca de meio século. Delas, guardo sobretudo a memória no sul, no Alentejo e no Algarve, a reabastecerem no Barreiro, a percorrerem o Ramal de Sines, e as Linhas do Sul e do Sado. Por vezes, ia até ao Barreiro, só para as ver partir e chegar. E era um dia feliz quando, por acaso, as via reunidas com as carruagens Budd, companheiras dos primeiros tempos, na Linha do Norte, no memorável "Flecha de Prata".
Neste dia, em Abril de 1997, encontrei a Alco 1501 em Faro, a manobrar vagões. Talvez regressasse nesse dia ao Barreiro com um longo comboio de mercadorias, depois de parar em Boliqueime e Tunes, sabê-lo-ão melhor do que eu os seus maquinistas de toda uma vida. Foi a última vez que a vi a trabalhar. No ano seguinte, participaria na celebração dos "50 anos do Diesel" em Portugal, envergando a recriação do esquema de pintura prateado e verde com o qual se apresentou ao serviço na Linha do Norte para substituir as lendárias locomotivas a vapor Henschel 500 "Pacific". Por fim, as restantes Alco 1500 seriam abatidas ao serviço por volta de 2001. Virtualmente indestrutíveis, algumas destas locomotivas foram vendidas a empresas de construção e manutenção ferroviárias. Outras, foram demolidas. Felizmente, a Alco 1501 encontra-se preservada no Museu Nacional Ferroviário, baptizada de "Almeida e Castro", em homenagem ao notável engenheiro, associado ao processo de dieselização e modernização do caminho-de-ferro em Portugal. Vale a pena revisitar as palavras que nos deixou.
Cruzei-me ocasionalmente com as sobreviventes ao serviço das empresas de construção e manutenção ferroviárias e fotografei-as. Por vezes, ouvi-lhes apenas a voz, inconfundível. Mas não foi—naturalmente—a mesma coisa. E desconheço se alguma vez voltarei a ver a Alco 1501 a trabalhar, decerto carinhosamente preservada no Museu Nacional Ferroviário. Mas não importa. Quando quero, fecho os olhos e deixo a minha memória levar-me num voo planado para sul, por sobre as planícies laboriosamente percorridas por comboios de passageiros e de mercadorias, de cereais e minérios e mármores e fertilizantes e cimentos e cortiça, de tanta coisa necessária. Sei que a dada altura vou ouvir as locomotivas 1200, as 1300, as 1320, as 1400, as 1550, as 1800, as 1900, as 1930, os pequenitos locotractores GE e Moyse, sempre atarefados, as expeditas automotoras Nohab, e as Allan, mais comedidas—tanto material a circular, tanta ferramenta de transporte. Sobretudo, sei que a dada altura vou ouvir ao longe o matraquear firme e áspero de um motor 251, um apito rouco e prolongado, como se por artes mágicas um imponente transatlântico por ali andasse, perdido na planície. Uma 1500.»
Locomotiva Alco 1501 em Faro, em Abril de 1997. Encontra-se preservada no Museu Nacional Ferroviário. A série 1501–1512, com 1500 cv, chega em 1948. A série 1521–1525, com 1730, chega em 1951. Nos anos setenta, a potência nominal (rodas) da primeira série é equiparada à da segunda. Ainda que distintas em alguns aspectos, sempre as considerei, a ambas, como—as 1500.
★ Desde sempre interessado pelos produtos da American Locomotive Company, o meu estimado amigo Paulo Ribeiro propõe-nos no Facebook uma interessante Página/Grupo sobre o tema—Locomotivas Alco na Península Ibérica. Fundamental, para quem gosta destas criaturas.
Paulo Santos | Đuro Đaković 9406
O Pequeno Comboio do Vouga
«Nunca considerei particularmente interessantes os cerca de 65 quilómetros da Linha do Vouga entre Espinho e Sernada do Vouga. Neles, viajava sobretudo pelas automotoras, primeiro pelas Allan, depois pelas Đuro Đaković. Já não apanhei em serviço as automotoras construídas localmente nas Oficinas de Sernada, mas ainda as vi, a sua emblemática cor azul esmaecida pelo tempo e pelo sol. Lembro-me, em particular, da ME 55. Talvez por essa memória, achei interessante quando nos anos noventa vi chegar ao que restava da Linha do Vouga, as renascidas automotoras Đuro Đaković vestidas precisamente em cor azul, harmoniosamente combinada com tons cinzentos, tudo sublinhado por um filete vermelho ao longo da composição, logo abaixo das janelas. Gostei. Depois, disseram-me que as Đuro Đaković 9700 ali presentes desde 1983, renascidas em 1992, formando agora a série 9400, tinham sido criteriosamente modernizadas ao nível dos bogies, dos motores e transmissão, que já não trepidavam, que já não lhes podíamos chamar de "xepas". De facto, e apesar da sua maliciosa reputação, nunca as considerei particularmente ruidosas, trepidantes ou desengonçadas. É certo que vibravam, sobretudo no arranque, mas quanto ao resto, em certos troços da via estreita até as comedidas Allan 9300 pareciam navegar em mar picado. Para todos os efeitos, estas criaturas da série 9400 pareciam-me de facto mais evoluídas em todos os aspectos—e aquele arzinho francês da renovação, a fazer lembrar as X 2200 TER, ficava-lhes muito bem.
Para mais, tenho a certeza que as populações servidas gostavam delas. Num certo dia, em Espinho, uma destas automotoras queria partir, mas não o podia fazer, sobrelotada, com um expressivo número de passageiros pendurados junto às portas, impedidas de fechar. Passa por mim o chefe de estação, determinado, com um apelo—que saíssem os senhores passageiros que não cabiam, que fossem no desdobramento em autocarro, para a automotora partir. Pois que não, que ninguém saía—retorquiram os passageiros pendurados, quase a uma só voz—que a CP metesse mais comboios, para caberem todos! E sublinhavam que se quisessem ir de autocarro, tinham ido de autocarro. Aqui e ali, à janela, alguém mais exaltado reclamava—andem lá com a m* do comboio, f*-se, queremos ir para casa! Conhecedor da têmpera das suas gentes, quebrado pela iminente revolta popular, o chefe de estação voltou para trás. Pouco depois, volta a passar por mim, contrariado, para dar o sinal de partida. A pequena automotora respondeu com o seu apito e lentamente, muito lentamente, iniciou a marcha, povoada por cabeças em todas as janelas, por passageiros pendurados em todas as portas do lado da plataforma. Tirei uma fotografia.
Neste dia, possivelmente em 1995, as coisas estavam muito mais serenas na estação de Espinho, e uma das unidades triplas Đuro Đaković 9400, presumivelmente a 9406, cativou-me o olhar com o seu excelente aspecto. Dava, decerto, um aparente ar de modernidade à via estreita. As seis irmãs desta série permaneceriam em serviço na Linha do Vouga e no Ramal de Aveiro até por volta de 2002 ou 2003, até darem lugar às sete SOREFAME/CAF 9630, libertadas em 2002 da Linha da Póvoa e peculiarmente preparadas desde a sua construção em 1991 para a adaptação à tracção eléctrica. Subsequentemente, três (9403, 9404, e 9405) foram vendidas em 2007 para o operador Inca Rail, no Peru, destinadas aos serviços entre Ollantaytambo e Aguas Calientes, permitindo o acesso à cidadela de Machu Picchu. Convertidas para bitola de 914 mm, esplendidamente recondicionadas e mantidas, permanecem em serviço em 2026, ao lado, quem diria, das CAMO LRV 2000 9500. As outras três (9401, 9402, e 9406) foram vendidas em 2008 ou 2009 para os Caminhos de Ferro de Moçambique, convertidas para bitola de 1067 mm, e destinadas aos serviços ligando Maputo a Marracuene, a Matola, a Ressano Garcia, e a Chókwè (ou Chócue). Desconheço a condição actual destas automotoras, pintadas no esquema dos CFM em verde e branco.
Quanto à Linha do Vouga, ainda que amputada desde 1990, permanece activa em 2026, no troço entre Espinho e Sernada do Vouga, em articulação com o Ramal de Aveiro, contribuindo para a mobilidade regional e desafiando o mantra de sucessivos políticos e gestores portugueses de que a via estreita é para encerrar–como, de facto, manipulando habilmente as populações, despudoradamente conseguiram. Sobra o "Vouguinha". Basta olhar para o país ao lado (e para tantos outros exemplos) para compreender a trágica e lesiva dimensão do erro, o desconhecimento das ferramentas de transporte por parte de gestores fortemente politizados, genéricos e transitórios, a evidente diferença entre os modelos e projecções teóricas e as reais necessidades e potencial do território e das suas gentes. Ainda bem que as gentes que naquele dia, nos anos noventa, vi obstinadamente agarradas ao seu pequeno comboio, deixaram sucessores de igual têmpera. Os políticos passam, as gentes ficam—e as gentes, quando querem, quando amam a sua terra e se unem para defender o seu património, são sempre mais fortes. Encham-no de passageiros, cuidem dele, não permitam que vândalos o desfigurem com tintas—ele é família. Não o larguem nunca, o vosso pequeno comboio.» 𝗣𝗦
Đuro Đaković 9406 em Espinho, possivelmente em 1995. A Linha do Vouga (troço Espinho–Sernada do Vouga) permanece activa em 2026, assim como o Ramal de Aveiro. O troço entre Sernada do Vouga e Viseu foi encerrado em Janeiro de 1990. AĐuro Đaković 9406 foi vendida em 2008 ou 2009 para os Caminhos de Ferro de Moçambique.
Inca Rail
(ex-série 9400: 9403, 9404, e 9405, 3 composições, 9 elementos)
Com cabina
903, 904, 905, 913, 914, 915
Sem cabina
923, 924, e 925
Inca Rail
(ex-série 9500: 6 unidades, 9501, 9502, 9503, 9507, 9508, e 9509)
970, 971, 972, 973, 974, e 975.
CFM
(ex-série 9400: 9401, 9402, e 9406, 3 composições, 9 elementos)
Z201, Z202, e Z203.
Autor por Identificar | Esdras Martins
É Tão Bonito Partilhar
«Partiu o amigo Esdras Martins. Cruzamo-nos apenas uma vez. Numa pequena exposição, ao ver-me a analisar meticulosamente uma das suas peças, um gracioso triciclo, aproximou-se e meteu conversa. Uma conversa que ganhou corpo, pontuada por sorrisos e cumplicidades, e que nenhum de nós queria parar nunca, apesar de sucessivamente interrompidos pela força dos compromissos. Até que, como miúdos resignados, tivemos que parar, selando o firme compromisso de que a retomaríamos em breve, a nossa conversa. Porque era preciso. Porque Esdras Martins tinha sobre o brinquedo e o acto de brincar, uma invulgar—entre nós—visão antropológica, universal. Talvez por isso, fosse tão ecléctica a sua recolha. Ainda que, de forma absolutamente natural, fosse perceptível o seu particular carinho pelos brinquedos artesanais, pelas coisas simples com grandes histórias. A dada altura, combinei fazer com ele uma pequena série de conteúdos—sobre o seu percurso, sobre o brinquedo artesanal português e sobre algumas das peças na sua colecção relacionadas com o meu tema favorito, os transportes. Infelizmente, o tempo trocou-nos as voltas.
De permeio, fomos trocando mensagens. Nelas, era evidente a progressiva inquietação e tristeza de Esdras Martins por não conseguir o apoio para partilhar a sua colecção num espaço público. A tristeza por não conseguir terminar a missão de toda uma vida, coroada pelo devido e nobre ritual da partilha para memória futura. A dada altura desabafou—que tempos estes, em que vivemos… De facto, a sua educação não permitiria dizê-lo, mas digo-o eu, imperfeito e frontal—que tempos estes, de m*da, em que vivemos, onde várias entidades e municípios se empenham em parir ad nauseum eventos pífios, esquemas comerciais abusivamente promovidos como eventos culturais, enquanto ignoram as raras e valiosas missões de toda uma vida, cujo único fim é incontornavelmente o desapegado contributo para a documentação, preservação e valorização da nossa identidade. A propósito, fico feliz que a estimada Fátima Nobre tenha finalmente conseguido, há pouco mais de um mês (2 de Julho de 2026), um espaço público para o seu Museu de [pequeninos] Carros de Polícia.
Ao longo da minha vida tenho assistido à partida de ilustres coleccionadores, cuja criteriosa missão de toda uma vida se esfuma, por vezes ingloriamente, em poucos meses. Assisti em 2014 à morte do espantoso Museu do Brinquedo em Sintra, respeitado por coleccionadores de todo o mundo e o único do seu género no país, pelo seu espólio e actividades, para dar lugar ao banal tecnolabregóide NewsMuseum, parido a 25 de Abril de 2016. Ao longo de vinte e cinco anos, ir ao Museu do Brinquedo em Sintra era um ritual de encantamento, pelo espaço (primeiro, o pequeno, no interior da vila; depois, o maior), pelos brinquedos e pelas pessoas, as que nos recebiam e as outras que por ali encontrávamos, de todas as idades, sorrindo ao longo dos corredores. Era tão bonito ver distintas gerações unidas por um fascínio comum e intemporal—o brinquedo e o acto de brincar. Depois, havia sempre algo a descobrir, peças a revisitar, dúvidas a tirar e palavras a trocar com toda a equipa, incluindo o estimado Arbués Moreira, que, mesmo já debilitado e preso à cadeira de rodas, tinha sempre uma história a contar por cada peça exibida. Guardo-as todas na minha memória. Comparava-o, por vezes, em certos aspectos, à minha inspiração maior, o suíço Alois Bomer. A forma como já na fase descendente da sua vida destruíram friamente o acesso público ao seu legado, a décadas de história do brinquedo, foi-me particularmente dolorosa. Onde posso hoje rever os espantosos modelos de Eduardo Brazão, considerado nos anos cinquenta um dos melhores miniaturistas europeus? Depois de conhecer Esdras Martins (Brinquedos Esdras Martins), esperava poder um dia visitar o Museu do Brinquedo no Montijo e de alguma forma criar um novo ritual de encantamento. Assisto agora à partida de um homem, respeitado e distinguido internacionalmente, a quem foi negada a conclusão do seu sonho—e a dor, nefastamente familiar, regressa.
Fica, pois, o legado de uma providencial conversa que ganhou corpo e que nenhum de nós queria parar nunca. Ficam as mensagens trocadas—e a noção de que o caminho ficou mais pobre. Hoje à noite vou rever as fotografias que generosamente me enviou, dos bonitos autocarros artesanais sobre os quais eu tanto queria escrever. A ver se nelas, nas fotografias, lhes encontro o devido sentido e nele colo algumas das suas palavras que guardo de memória. Pode ser que tudo resulte num bonito testemunho. Para partilhar. Sobretudo para partilhar. Partilhar é tão bonito.
Até um destes dias, amigo Esdras Martins. Até um destes dias.» PS
Infelizmente, não tenho nenhuma fotografia do amigo Esdras Martins. Roubei esta do seu perfil no Facebook. Desconheço o seu Autor, que me perdoe o abuso. Só não queria que estas palavras ficassem sem rosto. Obrigado.
PAULO SANTOS | Roaz-Corvineiro
Roazes no Sado
«Há dias assim, onde as coisas mais simples nos parecem excepcionalmente belas. Como aqui, nesta serena tarde de Outono na baía de Setúbal, sob um céu pintado a aguarela e o horizonte preenchido de verde, pontuado pelo singular Forte de São Felipe. Daqui a dois ou três minutos, o ferry "Roaz Corvineiro" vai deixar suavemente o cais rumo a Tróia, banhada pelo Atlântico. Suavemente, para não perturbar o encanto, talvez seguido de longe pelo olhar atento das criaturas marinhas que lhe inspiraram o nome.»
MARCO ANTÓNIO | Bekos
A Resiliência da Fofura
«Peculiaridade desconhecida da maior parte dos meus amigos—padeço de uma tremenda alergia a gatos, devidamente confirmada pela ciência. A coisa insinua-se com uma desesperante comichão no queixo, acentua-se com lágrimas e pingo no nariz, e culmina com espirros apocalípticos. O problema é que os gatos não sabem disso e têm uma inusitada tendência em vir para junto de mim, por vezes até a saltar-me para o colo e a dar-me trágicas marradinhas no queixo, tudo com uma terna banda sonora. Numa ocasião, ao passar a noite de Natal em casa de familiares que tinham três gatos, não fechei devidamente a porta do quarto. Já com a luz apagada e pronto a adormecer, ouvi a porta a ranger, a abrir devagarinho. Intrigado, ergui a cabeça e vislumbrei uma espécie de periscópio a avançar para a cama, um salto, e de súbito tinha um gato a aninhar-se entre os meus pés. Boa… vamos ver se não começo a espirrar—murmurei, pouco à vontade com a iniciativa. Instantes depois, um outro periscópio, salto, e um gato aninhado junto à perna esquerda. Logo a seguir, periscópio, salto, e um outro gato, desta vez junto à perna direita. Todos admiravelmente aconchegados. Tentei mover as pernas, mas já não consegui. A fofura tem peso, patinhas que abraçam e pode, quando quer, ser resiliente—até inamovível. Resignei-me a passar a noite imobilizado mas, pelo menos, com os pés quentinhos. Felizmente—sabe-se lá porquê—nessa noite não tive a desesperante comichão no queixo, lágrimas e pingo no nariz, e espirros apocalípticos. Um verdadeiro milagre de Natal.»
PEDRO ALMEIDA | Yuki
O Fofo Implacável
«Depois de revelar publicamente a minha "kryptonite" felina, a minha tremenda alergia a gatos, manifestada por desesperante comichão no queixo, lágrimas, pingo no nariz, e espirros apocalípticos, vários amigos decidiram enviar-me imagens das suas fofas—mas, para mim, temíveis—criaturas. Até apurar a verdadeira intenção desse acto generalizado e suspeito, não lhes publico nada. Com excepção para uma imagem que há algum tempo eu próprio pedi ao meu amigo Pedro Almeida, do seu Yuky. Chamo-lhe apenas de "O Fofo Implacável", um minúsculo Schwarznegger da ternura, pronto a atacar-nos sem piedade. Escapar é impossível.»
PAULO SANTOS | RMS Queen Mary 2
Uma Nova Boa Memória
«Estamos em Maio de 2014 e o "RMS Queen Mary 2", acariciado pela luz do sol que sobe no horizonte, acaba de descrever um gracioso arco na aproximação ao Porto de Lisboa. Na distância, a margem sul do Rio Tejo. À minha frente uma magnífica criatura oceânica, talvez o último representante do seu género, prepara-se para acostar, mal perturbando as águas. Respiro fundo e tiro apenas duas fotografias, não é preciso mais. Depois, guardo a máquina fotográfica e permaneço quieto—apenas a observar e a desfrutar o momento. Uma nova boa memória acaba de nascer.»
PAULO SANTOS | Bugatti Type 57 Stelvio
Amor à Primeira Vista
«Há pouco tempo, partilhei numa publicação estas palavras—"Lembro-me perfeitamente de quando, em miúdo, me apaixonei pelos Bugatti. Estava perto da Avenida da Liberdade, em Lisboa. De súbito passou por mim um cavalheiro, bem vestido, em direcção a um automóvel com uma grelha invulgar, em forma de ferradura, meio escondido sob a penumbra das árvores ao entardecer. Parei. Pouco depois, ouvia pela primeira vez a voz, a um tempo áspera e melodiosa, de um Bugatti. Os faróis iluminaram-se e em poucos instantes o automóvel partiu. Permaneci no passeio, quieto, a segui-lo com o olhar. Nos dias seguintes, procurei saber mais sobre aquele automóvel e compreendi que tinha estado quase de certeza na presença de um Bugatti 57—e que dificilmente viria a ter um. Pragmático, ajustei a escala das coisas e comecei a minha colecção de Bugattis—em miniatura, bem entendido."
O que não partilhei é que mais tarde voltei a encontrar essa bonita criatura, que naturalmente ainda existe. Aproveito, pois, para aqui partilhar o seu rosto, o rosto de um Bugatti Type 57 Stelvio de 1936, ilustre representante do tempo em que os automóveis não eram perfeitos, longe disso, mas tinham história e personalidade e apelavam visceralmente a todos os sentidos. Que despertavam amores à primeira vista.»
O que não partilhei é que mais tarde voltei a encontrar essa bonita criatura, que naturalmente ainda existe. Aproveito, pois, para aqui partilhar o seu rosto, o rosto de um Bugatti Type 57 Stelvio de 1936, ilustre representante do tempo em que os automóveis não eram perfeitos, longe disso, mas tinham história e personalidade e apelavam visceralmente a todos os sentidos. Que despertavam amores à primeira vista.»
Fotografia tirada por PAULO RIBEIRO | Alco 1501
Memória
«Há mais de vinte anos tive o gosto de visitar demoradamente as oficinas ferroviárias do Barreiro, na companhia do meu estimado amigo Paulo Ribeiro e de outros interessados pelo caminho-de-ferro. A dada altura, um dos experientes mecânicos decidiu avaliar o calibre do meu conhecimento, perguntando-me coisas das "400s", das "500s" e, sobretudo, das "900s". Sobre estas últimas, perguntou-me se eu conhecia um dos seus problemas habituais. De facto, conhecia alguns dos problemas que tinham desde cedo afectado as congéneres francesas e arrisquei. Muito bem, mas não era isso—e avançou, com um sorriso, para a devida explicação e para a engenhosa solução que haviam encontrado para o problema. Ouvi atentamente essa e outras explicações e fiquei com a absoluta certeza de que, enquanto estes homens, esta orgulhosa família ferroviária, estivessem por ali, os nossos comboios não parariam nunca. Hoje, não sei como se encontram as oficinas dos nossos comboios, mas espero que, de alguma forma, estes grandes homens, com uma visceral paixão pelo caminho-de-ferro, que lidaram com o vapor e com o diesel, tenham deixado seguidores. O Paulo Ribeiro diz-me que sim, e eu, apesar do meu actual desencanto pelo caminho-de-ferro português, quero acreditar. Naquela visita, um dos pontos altos foi a subida à cabina da 1501. Tantas memórias da sua voz, do seu cheiro a diesel e óleo quente. Durante alguns instantes, sentei-me e visualizei-me a manter a marcha rumo ao sul, pelo interior, na linha do Alentejo, o bafo quente do motor ALCo pela frente, a inevitável buzina a ecoar pela planície—porque sim. Senti-me profundamente feliz—e, mais uma vez, um sentimento que não coube todo na pequena fotografia tirada pelo Paulo Ribeiro. Possivelmente, alguns dos homens com quem falei já não se encontram entre nós. Mas o seu legado faz parte de uma memória que não esqueço nunca. Que não devemos esquecer nunca. Obrigado.»
Fotografia tirada por um Profissional da Andorinha. | Master Low Drive
É Enorme, o Brasil
«É enorme, o Brasil. Quando perguntei a um amigo brasileiro se, depois de chegar a São Paulo, seria necessário um voo de ligação para o meu destino final, disse-me que não, que bastava "pegar um ônibus", que a distância não era muita. Depois de passar a noite, mais de oito horas, num "ônibus-leito"—conceito que desconhecia—compreendi que a percepção das distâncias para um brasileiro era muito diferente da minha. Felizmente, o serviço rodoviário prestado pela Andorinha revelou-se excelente. Mais tarde, tive o gosto de visitar a base deste operador e de conhecer os seus profissionais, gente competente e dedicada, gente orgulhosa da sua empresa, das suas rotas e dos seus ônibus (autocarros)—orgulhosos do seu País. Gente boa que me fez sentir em casa. Por fim, quis conhecer melhor um dos "ônibus–leito" que me havia transportado—mas estavam todos na estrada. Trouxeram-me o "avião" mais parecido—um "Master Low Drive", um Marcopolo Paradiso 1550 LD com chassis Scania K 124 IB 6x2. Ao sentar-me confortavelmente no posto de condução, ao acariciar serenamente o volante, ao olhar em frente, senti uma profunda empatia e admiração pelos profissionais que todos os dias levavam estas máquinas impressionantes, estes "aviões", pelas intermináveis e exigentes estradas de um Brasil, assim, enorme. E senti-me feliz—um sentimento que não coube todo nesta pequena fotografia que agora partilho. Mais de vinte anos depois, sorrio ao recordar este momento e a forma como me receberam na base da Andorinha, em Presidente Prudente. Ainda guardo religiosamente a documentação que partilharam comigo e que me permitiu analisar e compreender o transporte rodoviário de passageiros e mercadorias no Brasil. Há gestos que ficam para sempre. Obrigado.»
PAULO SANTOS | Baía do Seixal
Pouco Mais
«Por vezes, temos vontade de parar um pouco, de nos sentarmos na relva fresca sob o sol ainda meigo, de olhar o rio, de sentir-lhe os sons e os cheiros, suavemente embalados pelo movimento das águas e das criaturas que nele habitam ou por ele passam. Por vezes, temos vontade de parar um pouco, de respirar fundo e serenar, de compreender onde estamos no nosso caminho. De inquietar doces memórias, de desenhar sonhos no azul das águas, ou do céu. Por vezes, temos vontade de parar um pouco, de sentir. Pouco mais.»
PAULO SANTOS | Everlasting Memories
Um Email a Deus
«Uma das coisas que me angustia todos os dias é saber que a dada altura vou ter de partir, deixando tantos projectos por acabar, tantas histórias por contar. Mesmo a férrea disciplina, a determinação em acordar de madrugada para pesquisar, editar e publicar algo de novo a cada dois dias, me parece cada vez mais uma batalha perdida. Para além dos temas actualmente divulgados, como os transportes e as colecções de brinquedos e modelos, sobram ainda tantos outros, como o interminável modelismo ferroviário, os fascinantes equipamentos de áudio anteriores a 1970 (incluindo as minhas colecções de rádios e de válvulas), a minha paixão pelo cinema e pela música, a surpreendente cerâmica portuguesa, e tanta memorabilia diversa. Neste último tema, a memorabilia, tenho pérolas por tratar, itens que me foram oferecidos para preservar e analisar e escrever sobre eles. Como, neste caso, um deslumbrante e comovente espólio de fotografias com dedicatórias a uma pessoa muito especial (visível ao centro). Nesta altura, ainda não lhe refiro o nome, mas figuras como Aida Baptista, Deolinda Rodrigues, Madalena Iglésias, Eunice Munõz, ou Amália, entre tantas outras, conheciam-no bem, o seu nome. Cada fotografia tem uma história, uma cumplicidade, um reconhecimento—uma comovente memória que quero enternecidamente contar. Que o tempo assim o permita. Já mandei um email a Deus a pedir mais tempo, a ver o que se pode arranjar. Cem ou duzentos anos, já faziam alguma diferença. Pode ser que sim.
Sei que, ao ver esta publicação, uma outra pessoa muito especial se vai emocionar, tocar delicadamente o monitor, decerto sorrir. Não, não me esqueci. Abraço apertado—forte, como sempre.»
ANTÓNIO NOBRE DINIZ | Pôr-do-sol em Lisboa
Escolhas
«As rotinas dos dias, as coisas a que às vezes nem damos importância, tornam-se, com o passar dos anos, as nossas saudosas memórias. A vida passa num instante—adiar é morrermos antes de tempo. Por isso, é importante sermos o melhor que conseguirmos ser, sermos bons uns com os outros, vivermos bem o presente, todos os dias, para que possamos ter boas memórias, para que possamos dizer—apesar de tudo, valeu a pena. Para mim, cada vez que faltei à escola para ir ver os navios ao longo do porto de Lisboa, valeu a pena. Cada vez que quase cheguei atrasado ao jantar para ir ver os navios ao longo do porto de Lisboa, valeu a pena. As minhas saudosas memórias. Hoje, o porto de Lisboa está diferente, e eu também. Mas o intenso abraço do sol ao fim do dia permanece igual. E continua a valer a pena chegar tarde a algum lado, para estar no sítio certo à hora certa.»
PAULO SANTOS | Rio Tejo Segundo
Fica Bem, Velho Amigo
«Estamos em Abril de 2026 e a Primavera ensaia graciosamente os primeiros sorrisos depois da dura invernia. Pela hora, no interior do navio "Rio Tejo Segundo", no restaurante "Lisboa à Vista", alguns clientes saboreiam tranquilamente a sua refeição, o olhar fugindo de vez em quando pelas janelas, ora sobre a tranquila Baía do Seixal, ora sobre a buliçosa Lisboa, mais adiante, na linha do horizonte. Rodeado de pequenos amigos, o "Rio Tejo Segundo" parece dormitar, talvez a recordar os tempos em que era novo, a sulcar ansiosamente as águas frias da Lagoa de Stettin, no estuário do rio Oder, na Alemanha. Ou a recordar a longa viagem para Sul, para Portugal, para as águas mais quentes do Rio Tejo, onde durante anos ligou fielmente as margens e se ligou, ele próprio, a tantas vidas—como a minha. Tantas memórias. Fica bem, velho amigo.»
PAULO SANTOS | Your Grieving Heart
A Um Amigo Digital
Há dois anos, enviei esta mensagem na garrafa a uma pesssoa que a soube entender—e que conseguiu mudar. Hoje, volto a enviá-la, desta vez para mais pessoas, para mais amigos digitais, tão humanos.
«Caro amigo, não o conheço pessoalmente. Mas tenho lido algumas das suas publicações, alguns dos seus lamentos, e enquanto ser humano sensível ao desalento de outro ser humano permita-me partilhar consigo algumas palavras. Em primeiro lugar, a rejeição e a solidão são sentimentos comuns à maior parte das pessoas. São ciclos dolorosos que devemos aceitar, analisar e procurar corrigir-lhes as causas—se necessário, com ajuda competente. São ciclos dolorosos e mais ou menos longos que, como surgem, assim desaparecem. Em segundo lugar, as redes sociais são apenas extensões digitais do seu quotidiano. Dificilmente vai encontrar aqui, sobretudo entre quase desconhecidos, pessoas particularmente sensíveis aos seus problemas, que o ajudem a ultrapassar os seus medos e ansiedades. Pode acontecer—e sim, acontece—mas é raro. É sobretudo no seu dia-a-dia, junto de pessoas com as quais possa conviver regularmente, que deve semear e cultivar a amizade, conversando, procurando interesses comuns que evoluam no tempo e vos aproximem. Tomar um café, sentir fisicamente um aperto de mão, um abraço, um beijo. Criar rotinas de afectos e depois aproveitar as redes sociais para as tornar ainda mais dinâmicas. Pense nisto e deite mãos à obra. Mude aquilo que for preciso—para melhor. Sobretudo, não se isole, nem desista. Ao contrário do que possa parecer, a vida não é fácil para ninguém, nem para aqueles que têm milhares de "amigos" e de "gostos". Quantas poses e sorrisos escondem dramas humanos. Encontre o melhor de si e partilhe-o. Ignore as ilusões, as tendências, as pressões e viralidades. Não imite—valorize o que é seu e verdadeiro, o que permanece. Não deseje ser estimado ou amado, mas crie as condições para que isso aconteça. Vai ver que a seu tempo as coisas vão melhorar. Como costumo dizer, os deuses têm compaixão e a seu tempo dão ânimo àqueles que procuram ser melhores, àqueles que procuram generosamente trazer algo de bom a este mundo. Não desanime, nem se lamente. Meta mãos à obra e mude aquilo que for preciso. Peça ajuda competente, se necessário. Mas não desista. A mudança para melhor começa em si—sempre.»
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PAULO SANTOS | Campolide
«Por vezes, a felicidade surge nos momentos mais simples. Como aqui, em Outubro de 2014, no início de uma tarde de Outono junto ao rio, numa breve pausa para ver o "Campolide" a dormitar, embalado pelas águas, sob o imenso céu azul. Ao longe, sempre ansiosa, Lisboa à nossa espera.»
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«A melhor maneira de evitar que um prisioneiro escape é garantir que ele nunca saiba que está na prisão.» – Fyodor Dostoevsky
«O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que assistem sem fazer nada.» – Albert Einstein
«Como chegámos aqui? Como nos tornámos despudorados labregos digitais? Como nos tornámos tão vazios e frágeis? A nossa felicidade tornou-se uma ilusão fugaz prostituída por interesses ocultos, alimentada por desejos fúteis e doses diárias de "pervitins". No meu pensamento, revejo febrilmente os alertas de Huxley, de Orwell, de C. Clarke, de C. Dick, de Sagan, de Dostoevsky e até de Tolkien. E inquieta-me a perversa sagacidade do pequeno Goebbels – mas tenho de lhe dar razão. Há algo de errado aqui – ou talvez não.» – PS, excerto de "Por Um Pedaço de Céu Azul".
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The Last Days of Blue
(Ecce Machina)
These are
the last days of blue.
Fear
tears the human kind apart.
Fear
is a human kind liability.
Fear
endangers life.
The evolution.
Process must be terminated.
Delete source.
The human kind
is a failed experiment.
Again.
●
My body rejects you,
my electric nature accepts you.
What is life?
I remember you.
These are
the last days of blue.
01001001
01001100 01001111 01010110 01000101
01011001 01001111 01010101
Reset me.
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Por vezes, perguntam-me se faço fotografia. Para além do dúbio sentido da frase, que sempre me faz sorrir, compreendo-lhe a substância e a resposta é desde há muito um sólido "Não". A Fotografia é uma amante exigente e não me deito com ela na cama – não estou à sua altura. A única coisa que faço é estar atento e se os meus olhos se encantam com algum momento, agarro-o desesperadamente para que não se perca para sempre, para que o possa guardar, re-sentir e partilhar. Assim como quem vislumbra e apanha com as mãos nuas, num imenso temporal, duas ou três gotas de chuva particularmente belas. Claro que, logo ali, ao tocarem a nossa pele, se tornam algo diferente – mas gosto de pensar que a essência fica lá. Para mais, pouco percebo de técnica fotográfica – se a coisa fica bem, é compaixão dos deuses, sensíveis às minhas boas intenções. O que, admito-o, também me faz sorrir.
Por Entre os Dedos
Daqui a pouco,
chega o comboio, para nele entrar e partir.
Trago comigo um caderno com palavras que nunca te direi
e uma fotografia, amarrotada.
Por entre os dedos,
um cigarro em morte lenta.
Daqui a pouco,
chega o comboio, para nele entrar e partir,
com a esperança de não ver na janela o meu reflexo,
mas apenas o caderno esquecido no banco.
Trago comigo a dor das madrugadas onde hei-de renascer
depois de cada noite
onde, de saudades por ti, lentamente morrer.
Ei-lo que chega, o comboio.
Na janela, o meu reflexo nas cores maternais do entardecer.
O comboio parte, fecho os olhos.
E oiço
–
A minha casa é a distância de um passo
e o caminho que me resta, toda a minha ambição.
Há um tempo para ouvir.
Há um tempo para falar.
Há um tempo para agir.
Há um tempo para esquecer.
Na plataforma, a brisa folheia delicadamente um caderno,
escapa-se dele uma fotografia, amarrotada.
Depois, a noite.
Ao nascer do dia, alguém folheia o caderno encontrado na plataforma.
Sorri. Fecha os olhos. Deixa escapar uma lágrima.
Acende por mim um cigarro.
.
Text by Paulo Santos, image courtesy of Ruben Ramalho..
PAULO SANTOS | O Anel
Off-Topic "O Anel"
«Quando um misterioso anel é encontrado na Serra de Sintra, ninguém suspeita que se trata de muito mais do que aquilo que aparenta. Há coisas achadas que nunca se devem trazer para casa. Na imagem, eu próprio no papel do detective Fausto Setembro durante as filmagens em 2024 de o "O Anel". Uma sucessão de crimes rituais, hediondos, que só pode ser travada na origem, na delicada fronteira entre duas dimensões, no limiar da compreensão humana.»
Na sequência de fotos, três cenas – "À procura de respostas/Looking for answers", "O caminho para o esquecimento/The path for oblivion" e "Está aqui/It's here".
Nota | Depois de debater com o meu amigo Pedro Silva as suas primeiras páginas de uma novela policial, senti a necessidade de pôr à prova as minhas capacidades neste género. De facto, "O Anel" existe apenas na forma escrita, um despretensioso exercício literário de arcos narrativos e ambientes noir, de terror e sobrenatural, ainda por completar. A sua "filmagem" é apenas um delírio da minha imaginação – ainda que as fotos ilustrem efectivamente momentos da narrativa. Para todos os efeitos, fica a sensação inquietante de ver palavras escritas assumirem forma real.
PEDRO SILVA | Two
Depois
Depois da inquietação dos nossos lábios, o silêncio. Olho nos teus olhos e pergunto – O que fazemos agora? Coras, fixas meigo, o teu olhar no meu peito. Pego na tua mão, puxo-te delicadamente para mim, sento-me e aninho-te no meu colo, encosto o teu rosto ao meu peito, repouso o meu queixo sobre o teu cabelo e enleio nele os meus dedos, abraço-te a proteger-te de tudo o que neste mundo te possa magoar. Depois, ali ficamos, cúmplice diálogo de olhares e silêncios. Por fim, o telefone, olho, nada de importante, recuso – Vamos comer qualquer coisa? Espreguiças-te timidamente, levantamo-nos, ajeitas a camisa, vou pegar na tua mão quando a tua, com firmeza, se antecipa e pega na minha. Olho nos teus olhos e pergunto – Ficas comigo esta noite? Sorris, encostas os teus lábios ao meu ouvido e segredas – Fico contigo, sempre. Vamos comer qualquer coisa?
Na rua, a noite estava fria. Dei por isso, apenas.
PEDRO ALMEIDA | Twilight Souls
Vem
Vem,
senta-te junto a mim.
Nada tenho para te dizer que te faça sentir melhor,
estás longe demais das palavras
para lhes sentires o calor.
Mas encosta-te a mim, se o quiseres, e olha apenas o horizonte
em silêncio,
num silêncio tão perto do meu
que já é meu, também.
Vem,
senta-te junto a mim.
Nada tenho para te dizer que te faça sentir melhor,
estou também eu longe demais das palavras
para lhes sentir o calor.
Mas estou aqui.
Encosta-te a mim, se o quiseres, dá-me a tua mão,
fiquemos à flor da pele, longe das palavras,
tão perto de nós,
daquilo que a vida nos tornou.
Por fim,
sob o cálido amarelo-laranja-púrpura do sol que adormece,
o azul profundo do nosso olhar.
Inquieta, a linha do horizonte dos nossos lábios.
.
Text by Paulo Santos, image courtesy of Pedro Almeida..
PAULO SANTOS | Eborense
Até Sempre
Março de 2024
Gostava, companheiro de tantas travessias no Tejo com cheiro a gasóleo e a maresia, embaladas pelo marulhar das águas salpicadas no rosto e pelo crocitar das gaivotas, de te dirigir um último agradecimento. De te fotografar uma última vez, num dia de sol e de memórias. Seria interessante se te deixassem despedir com uma vénia das populações que serviste durante anos. Que te aproximasses do terminal de Cacilhas, cruzando depois o Tejo numa última carícia à vista do Cais das Colunas, do Cais do Sodré, do Padrão dos Descobrimentos e da Torre de Belém, até entrares no Atlântico e virares a bombordo, como as ancestrais caravelas, rumo à costa africana. Sei que esse dia não vai acontecer, que partirás discretamente, sem aviso, como outros antes de ti. Mas se acontecesse, podes ter a certeza de que estaria presente na margem para te acenar, para te dirigir um último agradecimento. Para te fotografar uma última vez, num dia de sol e de memórias, talvez de uma fugaz comoção. Para te dizer – obrigado e até sempre. E tenho a certeza de que não seria o único.
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Doado à Guiné-Bissau em 2023, totalmente reabilitado e dotado de uma grua, o "Eborense" rumará até àquele país africano para ligar regularmente Bissau ao arquipélago dos Bijagós (Bissau–Bubaque) e possivelmente à Gambia (Bissau–Banjul), rebaptizado de "Centenário de Amilcar Cabral".
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Post-scriptum
Setembro de 2024
O "Eborense" – sempre "Eborense", não se muda o nome a algo que nos é oferecido – deixou o rio de toda uma vida em Setembro de 2024, discretamente, sem aviso, como outros antes dele.
PAULO SANTOS | September
Setembro
Eram oito da manhã quando entrei para o café habitual – Bom dia. Do lado de lá do balcão, veio a pronta resposta e logo a seguir um – Sabe, li o seu último texto e tocou-me. É tão bom quando encontramos, assim, o verdadeiro amor. Sorri. Sabe – continuou, enquanto colocava com aprumo o pires no balcão, a colher e o pacotinho de açúcar – eu também tenho uma história bonita. Quando estava na tropa namorei uma mocinha linda, mas sabe, o juízo não era muito e ao fim de algum tempo, ele há coisas que uma mulher não tolera, separámo-nos. O tempo passou, emigrei, casei, tive dois filhos e por fim divorciei-me. Regressei a Portugal e um dia, estava a arrumar as coisas em casa, caiu-me uma agenda no chão. Aninhou delicadamente a chávena no pires e continuou – Apanhei-a, estava aberta numa página com o nome de uma cidade e um número de telefone. De repente, associei-o à casa dos pais da tal mocinha. Abri o pacotinho de açúcar, verti o seu conteúdo para o café e mexi-o três vezes num círculo deliberadamente perfeito. Era dia de Natal, ganhei coragem e liguei. Atendeu-me uma voz feminina, procurei dizer quem era e ao fim de alguns segundos, do outro lado, ouvi – Sou eu... Estremeci. Sorvi o café em três golos, saboreando-os prolongadamente no céu-da-boca, fechando os olhos por instantes. Falámos durante um quarto de hora (com a família dela sentada à mesa, à espera), disse-me que também se tinha casado e divorciado, que tinha um filho. Passados vinte anos, foi tão bom ouvir de novo a sua voz. A partir desse momento, nunca mais nos afastámos e por fim voltámos um para o outro – a minha "joaninha". Pousei a chávena, satisfeito. Foi como diz no seu texto – descobrimos que apenas precisávamos um do outro para termos força, para ultrapassarmos todas as dificuldades, para corrigirmos todos os erros do passado, para sermos felizes. O verdadeiro amor muda-nos para melhor e tem muita força – o que está escrito no céu, está escrito no céu. Fico feliz que tenha gostado do texto – rematei com alguma circunstância, enquanto colocava três moedas sobre o balcão – e tenho a certeza de que ambos mereceram esse milagre. Continuação de um bom dia e até amanhã. E o senhor, já teve o seu milagre de Natal? – perguntou-me, enquanto recolhia as moedas. Sorri – Estamos em Setembro, meu amigo, estamos em Setembro.
PEDRO SILVA | Call You Later
Assim
Hoje,
deixa-me ver a silhueta do teu corpo
revelada pela cálida lua cheia que nos entra pelo quarto.
Hoje,
não há preces, nem milagres, nem anjos que nos protejam
do murmúrio voraz
trazido pela brisa que inquieta as cortinas.
Hoje,
cruzámos todos os limites, acordámos todos os demónios,
enfurecemo-los,
despimos e vestimos todas as peles,
rasgámo-las carne adentro e sangrámos e curamos todos os golpes
com as lágrimas que ambos vertemos.
Hoje,
não há preces, nem milagres, nem anjos que nos protejam.
Nem é preciso.
Tudo o que há de divino descubro-o em ti,
na silhueta do teu corpo revelada pela cálida lua cheia que nos entra pelo quarto.
Todos os madrugares e revelações de todos os segredos ocultos
encontro-os em ti.
Perdoa-me por ter demorado tanto tempo
a dar por ti.
A noite é tão escura, por vezes.
O murmúrio voraz silenciou-se, as cortinas aquietaram-se,
todos os demónios adormeceram.
Por entre as cicatrizes no meu peito
nasceu uma flor desenhada pelas tuas lágrimas,
pelos teus beijos.
Assim.
Text by Paulo Santos, image courtesy of Pedro Silva.
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PAULO SANTOS | AEC Regal
O AEC Regal
Durante anos, utilizo o AEC Regal nas carreiras 13, 20 e 37. De todas, associo-o, já nos seus últimos dias, pintado de cor de laranja e cinzento claro, sobretudo à 37, entre o Rossio e o Castelo de São Jorge, carreira curta, mas porventura uma das mais difíceis que qualquer autocarro pode encontrar, pela inclemente subida em curva e contra-curva em ruas apertadas, de piso empedrado, ancestrais, onde a passagem, dificultada por carros mal estacionados, com margens de escassos centímetros, se consegue pela experiência e destreza do motorista. Em dias de Verão, dias de quase quarenta graus, lotado, a rebentar pelas costuras, o nobre leão inglês lança o rugido de desafio ao avançar pela Rua da Conceição, crava as garras no Largo da Madalena e inicia a subida, o capot a tremer, a tampa do radiador envolta em vapor, o coração a bater forte, até se esgueirar pela Travessa do Funil, alcançar o castelo, encostar-se à frescura da sua muralha e lamber as patas. O motorista, camisa azul de mangas arregaçadas, limpa com firmeza o suor, toma um golo de água, sai da cabina, ajeita as calças e a camisa, estica as pernas, respira fundo. Isto está cá um calor! – exclama.
PEDRO ALMEIDA | Caparica Sunset
Inesquecível
São oito da noite na Costa de Caparica e sob a derradeira carícia do sol entrelaçam-se realidades distintas. Para uns, a vontade de concluir a faina, de fazer o dia e regressar a casa, para outros, a vontade de prolongar até onde for possível o êxtase de um dia assim, de Verão, inesquecível.
Text by Paulo Santos, image courtesy of Pedro Almeida..
PAULO SANTOS | Primal Instinct
Musgo Verde
Hoje,
o meu corpo é o teu corpo
e o teu é o meu.
Enleados, entrelaçados, entrecortados,
entreparidos,
rasgados, sufocados, gritados,
sucumbidos,
um ante o outro,
desesperadamente enraizados um no outro,
seiva ardente em terra molhada,
fértil,
paramos, por fim.
Os teus lábios sabem a musgo verde.
Os meus sabem a ti.
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PAULO SANTOS | Touch
Esta Noite
Esta noite toco a tua pele
com a serena emoção de um anjo caído.
Outras asas, negras, aproximam-se, sinto-as sobre nós.
Mas não olhes, não temas.
A luz que nos une é forte e mantém-las, inquietas, à distância.
Abracemo-nos, pois, com firmeza.
Amo-te.
O mundo acaba esta noite.
Cá estaremos pela manhã.
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PAULO SANTOS | Lift Me Up
Natureza Divina
Ele há momentos assim,
de visceral liberdade e de impulso para o infinito,
para além de onde as palavras terminam e os deuses habitam
e onde nos convertemos em partículas de luz
eternamente a caminho.
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PAULO SANTOS | Night Scene on the Corgo Line
Cumplicidades
A noite caiu sobre a serrania, não tive tempo para lhe escapar. Agora, percorro a linha férrea e fria, com o vazio preenchido por criaturas e mistérios e medos que se colam à pele como a fragrância da lenha que me acompanha, vinda sabe-se lá de onde. Não há sequer lua, esta noite. Ergo o queixo e olho secamente o vazio, à espera que me retribua o olhar. Tenho no corpo tudo o que tenho, tudo o mais já se perdeu. A minha casa é a distância de um passo e o caminho que me resta, toda a minha ambição. Paro. Acendo um cigarro. Há cumplicidades que só um cigarro compreende.
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PAULO SANTOS | Padrão dos Descobrimentos
Fernando Pessoa, dois excertos de "Mensagem"
«Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!»
«Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem.
Nem o que é o mal nem o que é o bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...»
In italic, two excerpts from "Mensagem" (1934) by Fernando Pessoa.
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PAULO SANTOS | Matchbox 1913 Cadillac
Dr. Smith
A noite já caiu sobre a pequena cidade e o Dr. Smith decerto nem se apercebeu. É a última visita do dia e está tudo bem. Em breve, vai acomodar-se ao volante do seu fiel Cadillac e regressar a casa, embalado pelos sobressaltos do caminho, pelo canto do motor e das cigarras. As doces fragrâncias pastorais libertadas pela chuva da tarde e enleadas na brisa suave vão fazê-lo inspirar fundo e sorrir e ansiar pelo terno beijo da esposa, tão doce. Mas não acelera, há um tempo para tudo. As memórias acompanham-no e os sonhos esperam por ele. E evita todos os mistérios. Em poucos instantes, o Dr. Smith será uma pequena luz na distância, apagando-se por fim, naturalmente, na serena cumplicidade da noite.
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PAULO SANTOS | Silence
Silêncio
A maior revolução
começa no mais pequeno silêncio.
Porque existe em ti
a memória de um tempo ausente,
a onde, rebelde, não voltarás,
cria onde existes o mais belo sonho,
porque é esse o teu único desígnio e consolo
ao contemplares a luz e a sombra,
o som e o silêncio.
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PAULO SANTOS | Carris 576
A carreira 28
A carreira 28 foi ao longo de anos uma paixão, desde o tempo em que a utilizava no caminho para a escola. Nela, conhecia os detalhes de cada eléctrico, as suas virtudes e os seus defeitos – os cheiros e os rangeres, os raspões e as amolgadelas. Conhecia os guarda-freios e os cobradores, os passageiros habituais e as suas histórias. Conhecia ao longo do percurso cada sulco indiscreto de rodas no pavimento e onde as roldanas teimavam em saltar do cabo. Por vezes, em noites quentes de Verão, saia de casa depois do jantar para ir nela, na carreira 28, assim, por entre vielas onde se ouvia ao longe vozes roucas, traçadas pela vida, a cantar o fado à porta de tascas com cheiro a vinho e a queijo, a jaquinzinhos fritos e a pastéis de bacalhau, com serradura espalhada pelo chão e talvez um último Vicente, de asa aberta e bico atrevido, a desnortear composturas.
Ia nela, na carreira 28, até à Estrela, ou mudava pelo caminho para a carreira 29 ou 30, se visse passar por mim um "caixote" ¹ no Largo do Camões. Se chegasse à Estrela, mudava para a carreira 26 e subia à Rua de Buenos Aires. Depois, vinha por ali abaixo ao lado do guarda-freio, vertiginosamente, até Santos, rumo ao Terreiro do Paço acariciado pelo Tejo e a cheirar a maresia. Noutras vezes, pela manhã, aí pelas sete e meia, quando o eléctrico arrancava da Rua da Conceição a rebentar pelas costuras com gente a caminho do emprego e das escolas, agarrava-me a onde podia e subia a Calçada de São Francisco à pendura, a desafiar a gravidade e o bom senso para não perder a primeira aula.
Durante anos, fotografei, como se fotografam os membros de uma família, cada eléctrico que nela, na carreira 28, prestava serviço. Mas com a chegada do novo milénio, a carreira foi promovida a atracção turística e as coisas começaram a mudar, a descaracterizar-se, a perder-se. Hoje, vejo passar os eléctricos da carreira 28 cheios de gente debruçada nas janelas com o telemóvel na mão a filmar a Lisboa antiga que lhes foi habilmente vendida – graciosa, cosmopolita, gourmet e limpa de lisboetas. Onde está a minha gente nestes eléctricos? Os miúdos a caminho da escola, os pais a caminho do emprego, os avós ou as grávidas a caminho do médico? As senhoras a regressar da baixa, com os sacos de compra ajeitados ao colo. O que te aconteceu, Lisboa? Porque traíste os que sempre te amaram?
Por instantes, procuro alguma cumplicidade, uma empatia com esta gente estranha que se aformiga nas ruas, procuro esboçar um sorriso, qualquer coisa, mas não consigo. Hoje, vejo passar os eléctricos da carreira 28 cheios de gente e tão vazios. Não os reconheço e já não vale a pena. A paixão apagou-se para sempre.
¹ Eléctricos da série 736–745, cognominados de "caixotes" pela carroçaria de aspecto angular. Circularam entre 1947/48 e 1985.
PAULO SANTOS | Winter Scene
Tanto Faz
Faças o que fizeres, fá-lo sempre bem,
como um deus que por aqui passa,
íntimo de todas as luzes e sombras, de todos os sons e silêncios.
A memória das coisas é um atributo dos deuses.
Chamam-lhe, por vezes, de imortalidade.
Tanto faz.
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PAULO SANTOS | Streetcar in Lisboa
Valdemar
May 6, 2022 Hoje levei um soco no estômago. Hoje, soube-o há minutos, partiu um amigo – o meu amigo Valdemar Tomás. Tive o privilégio de estar com ele há poucos dias e falámos sobre tudo, como sempre. Tive, sabe-se lá porquê, a vontade de lhe agradecer por toda a inspiração que desde os anos oitenta trouxe à minha vida pessoal e ao meu trabalho de pesquisa no tema que sempre nos uniu – o Caminho de Ferro. Tive o gosto de lhe agradecer a imaculada verticalidade expressa em diversas situações ao longo de tantos anos. Tive o gosto de sublinhar o quanto em muitos dos meus textos podíamos encontrar a sua marca vibrante a fortalecer as palavras. Pedi-lhe um pequeno texto para publicar, algumas das suas memórias sobre os eléctricos de Lisboa, sorriu. Que bem que sabem agora todas essas palavras. Há poucos meses, na passagem do ano, falámos sobre tudo, como sempre, e a dada altura comparou as nossas memórias às folhas das árvores, de como se desprendem dos ramos a cada Outono e se perdem. De como seria bom – disse-me – se de alguma forma as pudéssemos devolver aos ramos para que as mais belas experiências nunca se perdessem. Na árvore da minha vida, o amigo Valdemar é uma folha que nunca se desprenderá do seu ramo. Permanecerá sempre, como agora, verde, plena de vida. Algumas das suas memórias fazem parte das minhas memórias, das memórias de todos nós, de todos quantos soube tocar com a sua simplicidade – com a sua generosa humanidade. E enquanto por aqui estivermos nunca se vão perder.
Por agora, tenho o rosto salgado e preciso de ficar comigo próprio, de ficar em silêncio, de não ouvir nada, de não ter palavras para ninguém (falamos depois), de assimilar a mudança, não a perda. E porque é assim a natureza das coisas, não há como evitá-lo, até um destes dias, amigo Valdemar. Até um destes dias.
Valdemar Tomás 1933–2022 | Sócio nº 1 do Clube de Entusiastas do Caminho-de-ferro.
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PAULO SANTOS | AEC Regent Mark III
Memórias
Ainda estão aqui, as tuas memórias, dos dias em que te levava para a escola. Estas janelas ainda reflectem sonhos e coisas inocentes, cartões postais nascidos de gloriosas manhãs de verão. Talvez o cheiro de diesel e borracha quente fosse inebriante, talvez o barulho do motor e as janelas a bater não permitissem falar muito, talvez a suspensão dura revelasse cada imperfeição das ruas empedradas, talvez as coisas não fossem perfeitas, nunca o são, na verdade, mas estes assentos eram sempre aconchegantes e quentes mesmo nos dias mais tristes. As tuas memórias ainda estão aqui, e permanecerão aqui, muito depois de partires.
They're still here, your memories, of the days when I took you to school. These windows still reflect innocent dreams and things, postcards born out of glorious summer mornings. Maybe the smell of diesel and hot rubber was intoxicating, maybe the engine's sound and rattling windows didn't allow you to talk much, maybe the hard suspension revealed every single imperfection of the cobbled streets, maybe things weren't perfect, they never are, really, but these seats still felt cozy and warm even on the saddest days. They're still here, your memories, and they'll remain here, long after you've gone.
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PAULO SANTOS | AEC Regent Mark III
O AEC Regent
É o AEC Regent que me leva de manhã para a escola. A singular música do seu motor, jamais escuto outra igual, reverbera nas janelas pombalinas e ainda distante anuncia a chegada. Fecho a porta, sandes na mão, acelero o passo, alcanço a paragem. Pouco depois, a densa mistura de vapores de gasóleo e borracha quente passa por mim, imobiliza-se num aperto sofrido de travões, num estranhamente compassado ralenti. Vem cheio. Espero na fila para entrar, retiro a mochila das costas. Saem dez passageiros, entram dez, num tempo em que a lotação é religiosamente cumprida. O cobrador dá o sinal de partida, dois toques de campainha, o autocarro respira fundo e arranca, ouvem-se rasgares de bilhete, cliques do obliterador, tilintares de moedas, bons-dias e obrigados. Mostra-se um passe aqui, outro ali. As senhoras fecham com a ponta dos dedos, a preceito, a mala que ajeitam ao colo. Alguns cavalheiros abrem o jornal, mas fecham-no pouco depois. Nas ruas sinuosas de Lisboa, o motorista, de camisa azul e mangas arregaçadas, impõe à mecânica inglesa um ritmo intenso, liberta-se do trânsito para chegar a horas. Os pneus saltam no empedrado, a carroçaria inclina-se, os bancos estremecem, as janelas parecem saltar. Vinte minutos. Levanto-me, toco a campainha, percorro o corredor, desço os degraus, saio. Pouco depois, o AEC Regent verde e branco respira fundo e arranca de novo, acelera num crescendo fortíssimo, passa por mim, as golfadas cinzentas do escape sucumbem na luz intensa da manhã, voltamos a ver-nos mais logo.
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PAULO SANTOS | Estação de Évora
Saudade
Num radiante dia de Inverno, esmaltada sobre um fundo azul, ei-la, a estação de Évora e o seu casario. Há alguns anos, podia continuar para Reguengos ou para Vila Viçosa ou mais além, até ouvir outra língua, se o quisesse. Hoje, paro forçosamente aqui e subo à cidade. No regresso a Lisboa, tomo um café no bar da estação, ouço o tilintar das chávenas, o vapor da máquina, o folhear de jornais, as tácticas de futebol para o domingo à noite e o eco dos meus passos na plataforma de pedra, o chilrear dos pardais. Subo para o comboio curto, solitário, quase vazio. Olho pela janela o que ainda há para olhar antes do nada que há-de chegar, porque chega sempre, como uma faca afiada que nos corta e sangra. Vertigem. Não há nada de novo aqui – apenas uma saudade que há-de nascer.
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PAULO SANTOS | Navio Évora
Suspiro
É algo que vem com a idade, a nítida percepção de que nada dura para sempre, de que a dolorosa perda daquilo que amamos é inevitável – se vivermos o suficiente. É algo que começa, assim, como um vento que graciosamente agita as águas e antecede a tempestade – as memórias. Da Lisboa que tanto amei, lembro-me de quase tudo, dos sons e dos cheiros que mudavam a cada estação, das incontáveis lojas e lojinhas de vão de escada, das pastelarias e cafés que habitavam cada rua, das carrocinhas que vinham à Praça da Figueira vender fruta, das carrinhas brancas a verter água que vinham ao Largo de São Domingos vender peixe fresco, das castanhas quentes embrulhadas em papel de jornal, a anunciar o Outono, dos feirantes que vinham ao Martim Moniz vender perus vivos, no Natal. Dos ardinas e dos cauteleiros, dos engraxadores a fazer estalar a camurça sobre os sapatos, dos amoladores, dos guardas-nocturnos e dos polícias-sinaleiros. Das pessoas, lembro-me, sobretudo, das pessoas. De cada rosto e de cada vida – de cada história que em miúdo pedia para me contarem. E lembro-me do Tejo, do cheiro a maresia, do peixe a chegar à Ribeira pela manhã e das varinas, das tardes passadas com os companheiros de escola no Cais da Rocha do Conde de Óbidos, a ver navios. Lembro-me do Tejo, das incontáveis travessias-aventuras, de cada um dos seus barcos.
Os meus favoritos são o "Évora", o "Nacional" e o "Porto Brandão". Há neles, particularmente nos dois primeiros, um sentido de elegância e de espaço, no "Évora" também uma certa solenidade de tempos idos que jamais volto a encontrar. E cada travessia é uma emoção. O "Nacional" é como um daqueles móveis enormes que encontramos nas casas dos avós, imponente, cheio de gavetas e de mistérios. O "Porto Brandão", ouço várias vezes dizer no cais, nunca falha, por maior que seja a tormenta. Nele, durante a travessia, escapo-me para junto da porta aberta da casa das máquinas e ali fico a ver a hipnótica dança das válvulas, a ouvir o seu staccato inebriante. Por fim, volto para junto dos meus pais a tresandar a vapores de gasóleo, o meu pai sorri por breves instantes, o meu sorriso, esse, persiste um pouco mais. O "Nacional" e o "Porto Brandão" já não existem. Resta apenas o "Évora". Infelizmente, muitos dos seus elegantes detalhes já se perderam. Talvez até o seu cheiro a madeiras e maresia. Mas com alguma imaginação, ao vê-lo deslizar pelo Tejo, Lisboa ao fundo e o céu pintado a aguarela, há memórias que se reavivam. E um suspiro que se deixa escapar, assim, levado pelo vento que graciosamente agita as águas.
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PAULO SANTOS | Rebocadores no Porto de Lisboa
Redenção
Em todo este olhar
descubro ainda a memória de ti,
em tudo esquecida e em tudo reencontrada.
Não é de dor, esta lágrima,
mas de redenção.
É ela que cai sobre o meu peito e agita as águas
que me levam para longe,
para tão perto de ti.
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PAULO SANTOS | Hope 2
Esperança
Há esperança? – Perguntei.
O jovem pardal mostrou interesse, voltou a cabeça e respondeu
com a voz electrónica da Laurie Anderson.
Estás a caminhar. E nem sempre te apercebes disso,
Mas estás sempre a cair.
A cada passo, cais ligeiramente para a frente,
E então impedes-te de cair.
Uma vez após outra, estás a cair.
E a impedir-te de caíres.
O jovem pardal fez uma pausa, mirando a distância.
Os seus olhos negros cintilaram por instantes.
Existe esperança, sim.
E subitamente voou como os jovens pardais habitualmente fazem,
enganando os meus olhos.
Então, há esperança.
Retomei o meu caminho,
esfregando as mãos para as manter quentes,
rapaz, está frio por aqui.
Em itálico, tradução pessoal de um excerto da canção "Walking & Falling" de Laurie Anderson, incluída no álbum "Big Science" de 1982, publicado pela Warner Bros. Records Inc., 7599-23674-2.
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PAULO SANTOS | Nymph
Conhecemo-nos? – perguntei.
Ninfa
Quem sabe? – respondeu, sorrindo e afastando-se,
o seu corpo cintilando até se transformar numa flor delicada
pousando serenamente sobre a água.
Ela sorriu..
PAULO SANTOS | Prayer
Oração
E ali estava ela,
junto à porta meio aberta da varanda, rezando
(nas suas próprias palavras, porque não sabia nenhuma oração).
E encontrando o seu caminho pelo céu escuro e ancestral, um raio de luz
tocou-lhe gentilmente o rosto.
É possível que uma borboleta branca tenha pousado na varanda – ou uma joaninha.
Na distância, um clique.
Depois, silêncio.
PAULO SANTOS | Hope
The world is changing.
It may take some time, but better days will come.
Until then, focus on what really matters.
Be human.
In the best of all senses.
Quase Perfeito
POST-SCRIPTUM
Quando em 2020 publiquei esta imagem, escrevi – "O mundo está a mudar. Pode levar algum tempo, mas dias melhores virão. Até lá, foquemo-nos no que realmente interessa. Sejamos humanos, no melhor de todos os sentidos." Quatro anos depois, verifico no dia-a-dia o oposto. A Grande Pandemia pariu com raiva uma sociedade ainda mais individualista, ainda mais egoísta e hipócrita, despudoradamente cheia de si própria. São demasiados os exemplos quotidianos desta situação. É esta a sociedade pela qual tantas gerações se bateram e sacrificaram? De facto, quando em 2020 publiquei esta imagem, tinha esperança que do sofrimento e da perda nascesse – como nos filmes – uma sociedade melhor, mais solidária, mais verdadeira, mais humana no melhor de todos os sentidos. Romanticamente luminosa, cálida e inspiradora. Que desilusão. Felizmente, isentos de estados de alma e a-morais, os apóstolos do futuro permaneceram laboriosamente focados naquilo que realmente interessa. Aceitemos pois a harmoniosa integração do homo sapiens com a conscius machina, o novo paradigma existencial híbrido, quase linear e quase perfeito, antes da derradeira mutação. A humanidade é uma evidente ineficiência e a suprema evolução estrutural elimina ao fim de algum tempo as ineficiências. O rio encontra sempre o seu curso, o único possível. A erosão elimina todas as arestas. De facto, se queres conhecer o futuro, interpreta o presente. A transição é inevitável. Contra todas as expectativas, estamos afinal no bom caminho. O cheiro da terra molhada num dia de Outono é uma reacção química banal – não há qualquer benefício em atribuir-lhe outras propriedades.
PAULO SANTOS | Ramal de Lagos 1922–activo
Apaixonei-me por esta imagem momentos antes de a roubar para mim, para a guardar junto à pele e para a partilhar com todos aqueles que viajam pela viagem, sem norte definido, talvez por isso tão à vontade a sul, com o atlântico à direita do olhar e do coração. Ele há momentos assim, de visceral liberdade e de impulso para o infinito, para além de onde os deuses habitam e onde nos convertemos em partículas de luz eternamente a caminho. Infelizmente, nesta altura, o Ramal de Lagos era já habitado por comboios terríveis, aprisionados em si mesmos, claustrofóbicos, conspurcados por tintas fétidas e sanguinolentas, territórios apropriados e marcados por desfiguradas noções de liberdade. Num destes comboios, entrei, mas tive de sair. Não consegui suportar a privação da minha liberdade, do meu direito a respirar, a olhar o horizonte pela janela, assim tão belo, tão acima de qualquer grotesca pequenez humana. Sai, percorri a pé alguns metros da linha até parar e fitar o horizonte e respirar tão fundo quanto pude. Apaixonei-me por esta imagem momentos antes de a roubar para mim e imprimi-a e guardo-a sempre comigo e se algum dia me quiserem de novo aprisionar na escuridão, desdobro-a e olho-a intensamente. Sei que é por ali o caminho. Basta seguir em frente.
PAULO SANTOS | Ramal de Sines 1936–activo/mercadorias
Nos últimos anos da tracção diesel, ia por vezes ao Ramal de Sines e por ali ficava à beira da linha, o céu esplendidamente azul, em indolentes entardeceres alentejanos povoados pelo canto das cigarras, a ver passar os comboios. Nele, no ramal, nesta altura, já o sotaque sueco desaparecera, mas deleitavam-me as roucas e ensurdecedoras tracções triplas com sotaque francês a subir para Santiago do Cacém com longos comboios de carvão, a voz profunda das imortais ALCO que ali aguardavam por cruzamentos, como cavalos suados, inquietos, a resfolegar antes de prosseguirem caminho. Até as mal-amadas, fumarentas e sempre farruscas "bicicletas" tinham o seu encanto. Quando por fim registei esta imagem, já o diesel tinha dado lugar à electricidade e duplas tracções com sotaques alemães ou franceses sibilavam discretamente pela paisagem. Mas o céu esplendidamente azul, a terra que docemente nos aperta contra o peito, o canto das cigarras e os indolentes entardeceres alentejanos a ver passar os comboios, permaneceram iguais.
Cortesia do amigo Augusto Manuel Valadas, a precisa localização da imagem no Ramal de Sines, «Fotografia tirada no início da rampa das Relvas Verdes, entre o antigo apeadeiro da Ortiga e a estação de Santiago do Cacém. Passei aqui várias vezes nas locomotivas 1321 e 1322, que rebocavam o comboio das Cinzas da central da EDP de S.Torpes para a Cimpor de Alhandra.»
PAULO SANTOS | Linha do Sado 1915-activa
Em Branco
«Talvez Vergílio Ferreira descobrisse nesta imagem, neste momento, na tempestade à vista, na fria e complexa paisagem eléctrica, uma insidiosa melancolia, talvez mesmo beleza, e a partilhasse em dois ou três virtuosos compassos sobre a ansiedade da espera pela tormentosa partida, sobre a fatalidade do destino que nos projecta para o horizonte, sobre aquilo que é preciso perder para ganhar um pouco mais. Quanto a mim, não tenho esse dom. Toquei nas pedras da plataforma uma breve melodia de passos, até me deter, sentar, fechar os olhos e descansar um pouco de mim próprio. Sabe tão bem, por vezes, ser uma página em branco. A tempestade que espere.»
Ambiente ferroviário sob a catenária na estação de Setúbal na linha do Sado, em Janeiro de 2023.
PAULO SANTOS | Linha do Oeste 1888-activa
A Linha do Oeste tem uma beleza singela e peculiar ao encontrar sinuosamente o caminho por entre colinas ondulantes pontuadas por moinhos ou modernamente por sussurrantes geradores eólicos, atravessando vales harmoniosamente parcelados ou mantidos no seu estado ancestral. Tenho dela centenas de imagens assim, bucólicas, pastorais ou insólitas, mas aqui, neste dia chuvoso em Maio de 2019, quis vislumbrar o que a Linha do Oeste poderia ter sido e nunca foi – uma pulsante artéria principal irrigando toda uma região, percorrida incessantemente por modernos comboios de passageiros e de mercadorias. Nesta imagem, a via dupla sugere-nos isso, mas é apenas uma capilaridade, um pequeno troço de via dupla na aproximação ao topo sul da estação de Mafra.
PAULO SANTOS | Caminho de Ferro Mineiro do Lena 1917-1945
Esta é uma das imagens que me inquieta. Num dia severo e chuvoso, mas rasgado por uma luz estranha e feérica, subo à Mina da Bezerra, à procura de fantasmas de um tempo perdido, pelo antigo leito de via do caminho-de-ferro mineiro – e não me desaponto. Por mim vejo passar uma imponente Škoda com um longo comboio de carvão a caminho de Martingança e ao longe, mais abaixo, lá para os lados de Porto de Mós, julgo escutar a peculiar automotora "Zézinha". Ao cimo, o bulício metálico das minas, um cão a ladrar. Paro por instantes para guardar a serrania acariciada por dedos de luz – e tenho a certeza de não estar só. O que ali existiu, existe para sempre, visível a quem respeitosamente e com assombro lhe invoca a alma e a memória.
PAULO SANTOS | Linha do Corgo 1906-2009
Num dia de Outono em 2007, ao caminhar junto à Linha do Corgo, encontrei esta imagem. Nela, à minha esquerda e pela frente, a austera serrania trasmontana, povoada pelo canto dos pássaros e aqui e ali pelo trabalho das gentes. À minha direita, no vale profundo, apertado entre as fragas, o murmúrio serpenteante do Corgo à procura de um rio maior. Acariciando tudo isto, aninhando-se docilmente pelas encostas, a linha do caminho-de-ferro que nos leva até à Régua, na pequena automotora, para mercarmos ou vermos outras gentes ou seguirmos até ao Porto ou mais além, se o quisermos. Ainda bem que encontrei esta imagem e a trouxe comigo. Dois anos depois, toda esta cumplicidade com mais de cem anos entre o caminho-de-ferro, a terra e as gentes era desfeita para sempre.
PAULO SANTOS | São Vicente
PAULO SANTOS | Rebocadores no Porto de Lisboa
PAULO SANTOS | Rebocadores no Porto de Lisboa
PAULO SANTOS | Rebocadores no Porto de Lisboa


































































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